segunda-feira, 28 de março de 2011

VISITANTE MACABRO


A chuva finalmente havia dado uma trégua naquela noite, e quando Paolo chegou, depois de ter ficado trabalhando por horas, aproximou-se e percebeu que a porta estava entreaberta. Havia algo estranho, e depois de hesitar, empurrou-a para entrar.


Lentamente ele foi tentando acostumar os olhos àquela penumbra gélida, até conseguir ligar a luz. Ligou. E desejou jamais ter ligado. Seus olhos amaldiçoaram-se ao ver aquele horror. O imenso corredor se abria a sua frente, e marcas de sangue tanto no chão quanto nas paredes, fizeram-no perder o equilíbrio. Aquilo não podia ser verdade! Tentou caminhar mas não conseguia sair do lugar. Levou a mão à boca, e foi ai que observou mais detalhadamente: havia algumas pegadas que saiam da sala. Paolo tomou coragem e mesmo com o semblante inundado em medo, viu-se decidido em ir até lá.


A enorme sala se abria a sua frente. Num canto o seu barzinho e no fundo uma lareira, ambos velando aquela cena maldita de terror. E no meio da sala... lá no meio estava ela. Bia, sua adorável mulher. Paolo a reconheceu pelas roupas. Apenas! Em lágrimas, ele sentiu o chão lhe faltar. Seus olhos só viam sangue, nada mais que sangue.


Não quis mais olhar o estado em que se encontrava sua mulher. Não quis acreditar que aquilo era real. Bia estava sem a cabeça junto ao corpo. Alguém a arrancara. Estava coberta de sangue e não havia sinal de luta, apenas de horror... mais que horror...


De repente ele ouviu um barulho. Era como um gemido estranho, algo prazeroso. Vinha do quarto. Então Paolo levantou e seguiu até lá, pisando sobre o sangue de sua mulher. Quando ficou sob o umbral da porta, de frente para o quarto onde eles muitas vezes promoveram noites quentes de prazer, ele estancou. Nunca tinha visto uma coisa daquelas antes. Aquele demônio prazerosamente comia, no centro do quarto, a cabeça de sua mulher. A criatura tinha facilmente mais de dois metros de altura e em vez de duas, tinha quatro pernas e um rabo que riscava o chão. Das suas costas saiam lanças afiadas, cortantes e destruidoras. Tinha ainda uma cabeça enorme, com chifres pontiagudos e poucos fios de cabelo. Dos seus braços saltavam filetes de sangue e, à medida que aquela coisa ia comendo a cabeça de Bia, gosmas beijavam o chão.


— Quem é você, seu demônio? — ele nunca tremera tanto em sua vida.


Parou! Aquela coisa estancou e lentamente foi virando para Paolo. Sua cara parecia vir o inferno. Abriu a boca e mostrou os enormes dentes, cheios de vestígios dos miolos de Bia. Os tecidos e os nervos de Paolo se enregelaram com tudo aquilo.


— O que você quer... o que fez com ela?


Nunca obteve resposta. Aquela coisa macabra se aproximou dele e, de dentro dela saiu uma enorme navalha que em um só instante decepou a cabeça de Paolo, fazendo-a saltar corredor afora. O seu corpo, conseqüentemente, caiu no chão.


Não era bem oito horas da manhã quando os policiais chegaram na casa do casal. Assim que entraram, de cara viram o corpo de Bia, sem a cabeça.


— Meu Deus! Gente... venham até aqui! — gritou o policial que estava no quarto.


Paolo estava lá. Seu corpo, sem cabeça e numa posição impossível, estava pendurado na parede por estacas gigantes. Uma imagem satânica. Os braços e as pernas haviam sido comidos, e pedaços de carne jaziam dependurados, deixando a mostra os seus ossos. Na região do coração havia um buraco, que deveria ter sido arrancado de um só golpe. Já no seu estômago, tripas saltavam como se fossem cobras saindo do ninho. Havia muito sangue... demais!


Uns policiais vomitaram e outros não quiseram mais ver aquele ritual diabólico. Quando um deles saiu pelo corredor, notou que havia pisado em algo. Não esmagou, apenas sentiu. Era uma coisa verde, com num formato arredondada. Demorou em perceber o que era, mas quando finalmente compreendeu, viu que pisava em um dos olhos de Paolo.


terça-feira, 15 de março de 2011

PREMATURO



O que mais poderia desejar um jovem casal do que um fruto proveniente do seu amor? A notícia veio na hora do jantar. Ele saboreava a comida silenciosamente, e ela, querendo compartilhar aquela informação, permanecia a sua frente, inerte.


— Estou grávida — soltou ela.


De repente tudo ficou parado: o alimento que ele mastigava estancou, e o braço parou no ar quando novamente levaria o garfo à boca. Ele arregalou os olhos. Engoliu em seco aquela noticia e soltou o único talher sobre o prato.


A gravidez iniciou com normalidade. Às vezes ela sentia algumas pontadas, às vezes o estresse a acorrentava a certo ódio. Mas, em outras, e com mais freqüência ela começava a sentir nojo do que carregava em seu ventre. A jovem bela e delicada, começava a engordar, a criar manias e, além disso, a visão de sua barriga causava-lhe certo nojo.


— E como vai o nosso bebe? — perguntou ele, certa vez.


— Nem me fale. Tomara que venha logo essa desgraça, não agüento mais carregar isso dentro de mim como se fosse um incomodo.


Ela, que tanto desejou um filho, começou, pouco a pouco, a não mais o querer. O estresse, o ódio, o rancor e o desejo de fugir, envolveram-na em um manto de negror onde nem a psicologia conseguia explicar. Mas, finalmente chegou o dia de conhecer o sexo do inocente. Deitada na cama, o médico começou a examiná-la e, franzindo o cenho, falou:


— É... é estranho. Não há sinal algum de... lamento. Você não está grávida.


— Como não? — ela se espantou. — E esse meu barrigão de leitoa é o que?


Os meses passaram, e a barriga continuava crescendo. Muitas dores começaram a lhe golpear, e ela sentiu que havia alguma coisa dentro de sua barriga. Mas o que? Seis meses depois da notícia compartilhada à mesa, eles resolveram fazer o que deveria ser feito.


Na sala cirúrgica, os médicos espantaram-se com o tamanho de sua barriga. O marido observava do lado de fora, pelo vidro. E, quando os médicos ia começar a manusear os instrumento, eis que algo sob a pele começava a se mexer. Todos ficaram assustados. Alguma coisa viva queria sair de dentro dela. E, de repente, como se uma navalha interna estivesse trabalhando, seus tecidos foram se rasgando, a barriga foi se abrindo, o sangue foi escorrendo, e algumas vísceras começavam a aparecer. Mas foi quando a barriga se abriu de uma maneira impossível, que o espanto e o horror os invadiu.


Das entranhas daquela bela e amaldiçoada jovem, uma figura monstruosa assaltava aos seus olhos dos presentes. Aquilo que se externava tinha a pele vermelha, não pelo sangue, mas por alguma outra coisa. Os olhos gigantes, quase do tamanho da cabeça não eram horizontais, mas sim, verticais. A boca continha dentes afiados e eram para fora, assim como as orelhas. No couro cabeludo, a criatura ostentava apenas alguns fios de cabelo. As mãos, tão enormes quanto a cabeça, tinha três dedos afilados e afiados como navalha. As pernas sim, eram pequenas, e continha pés de nadador, sem dedos. Quando falou, fez gelar o sangue de todos. Era o horror em pessoa.


— É o demônio — disse um médico.


O marido não acreditava no que via. Fechou os olhos e apenas escutou o terror e o pesadelo acontecer ali dentro. Quando voltou a abri-los, viu o massacre que a criatura havia feito. Todos ali estavam mortos, decepados, fatiados como pão. A sala branca agora estava vermelha de sangue e resto de corpos. E o filho que ela sempre desejou, e que passou, com o tempo, a não querer mais, havia desaparecido — ou voltado para as sombras do inferno.


Dentro da sala, a única alma viva era a da jovem.



sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

O Mar



Não consigo enxergar algo que consiga ser mais belo do que o mar. Ao menos nada me vem à memória neste instante de lembrança. Veja como existem coisas lindas! Porém, nenhuma dessas coisas se aproxima da grande beleza que aos olhos se assalta ao ver aquelas ondas crespas quebrar na areia fina, úmida, receptiva à salgada fúria que a imensidão azul das águas mornas assim se faz morrer.

Certo, sei que muitos a mim dirão que sim, existem coisas maravilhosamente mais agradáveis aos olhos do que o mar. Mas espere! Preste atenção e imagine-se, agora, sentado na areia fina, talvez fofa, em frente ao mar. Imagine-se sentado, descalço, com os chinelos ao seu lado, vestido com a roupa de banho, seca ou molhada, e, com os olhos vivo, vidrados, contemplando o mar e suas doces glórias e desilusões. Sinta a maresia que lhe traz um ar de boas-vindas, de esperança e de, por conseguinte, saudade. Saudade de alguém que se foi, ou, mais estranho ainda, de alguém que virá, algum dia, e que o mistério da vida insiste em deixar escondida a sua revelação, encoberta como se uma nuvem negra pairasse sobre a luz.

Mas continue olhando as águas, sentindo o frescor do ar puro que emana do oceano, o barulho concreto e musical que o quebrar astuto e preguiçoso das ondas faz invadir os ouvindo e penetrar à cabeça como se fosse uma nota musical sem fim. Ao fundo, depois das ondas atrevidas, o mar manso e calmo, que nos faz acreditar que toda a sua imensidão seja assim. Mas o que será que vem depois de lá? O que existe depois do corte do horizonte fundido pelo azul do mar e do céu? Decerto seja isso que nos faz pensar, pensar e pensar... E a esperança carregada em cada ondinha que seja, em cada grão de areia, em cada fio de saudade... Ah, a saudade!

É maravilhoso e reconfortante caminhar na beira da praia, pertinho do mar, sentindo o aroma frívolo, seja no alvorecer ou no crepúsculo, descalço, com os pés tocando a areia molhada pelo mar que ali desfalece. Ver o pé afundando, sendo engolido pela areia e lavado pelo resquício de onda transformada num leve suspiro de água, é como pisar em outro mundo, se sentir leve, diferente...

Imagine-se, também, levantando e começando a caminhar em direção ao mar. Pise na areia molhada, enfrente a primeira onda e siga. Adentre o mar, pule uma onda, desvie de outra e brinque com uma terceira. Brinque como uma criança – afinal de contas, somos todos, eternamente crianças. Suspire e, enfim, mergulhe. Acho eu que, talvez, essa seja uma das mais agradáveis sensações que o mundo pode nos oferecer: o mergulho no mar. Por isso eu digo: mergulhe. Depois, atrofiado em êxtase, limpe os olhos que começarão a arder devido ao sal e sinta o gosto igualmente salgado que começará a lhe descer pela boca. Encare as ondas, pois, mesmo que o coração me leve para algum lugar, não consigo, de jeito algum, desviar o pensamento de que a qualquer momento uma rajada de água esbofeteará minhas costas, me fazendo cair no mar, derrotado, engolido pela onda.

Enfim o mar, a praia, o clima e a beleza de todo esse emaranhado de sensações infinitas não se compara a nada. Sim, o mar é a maior beleza que existe. É impressionante, e eu não consigo entender como tudo isso consegue inspirar poetas, músicos, amantes, artistas e assassinos doentios, sem fazer nenhum esforço. É como sempre eu digo: a vida é feita de expectativas, antecipadas pela ansiedade. E que lugar e momento melhor para matar essa ansiedade, essa ânsia, do que o mar?

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

A MORTE DA ESPERANÇA



Sempre sonhei em ter o melhor de todos os filhos do mundo, e não nego, o tive sim. Chamava-se Geremia Aguirre. Um lindo homem. Sempre dedicado e estudioso, era a coisa mais preciosa que eu poderia querer. Sabe, às vezes é complicado lembrar de coisas que um dia se foram, mas se eu pudesse voltar no tempo para fazer qualquer coisa, voltaria por um simples motivo: para esperar. Simplesmente esperar.


Sair de casa na esperança de encontrar-se com alguém pode ser algo tão grandioso que nem a ciência humana é capaz de explicar. Naquela noite Geremia saiu decidido: era tudo ou nada, o infortúnio ou a glória. A noite havia caído, e antes de esperá-la no lugar programado, Geremia deu-se ao trabalho de comprar um belíssimo buquê de flores. No caminho, algo em sua expressão trazia esperança, mesmo que no fundo um certo negativismo o golpeasse. Seria o tudo? Seria a glória? Bastava esperar.


A praça estava deserta. Os ventos sopravam sem violência alguma. O ar era maravilhoso. Em uma hora Mariella chagaria. Ou não! Mas Geremia estava cônscio que sim. Claro! Ela chegaria sim. Então ele esperou. Cheirou as rosas, olhou a sua volta e espero. Os minutos foram passando. Faltavam agora quarenta e cinco minutos. Meia hora, quinze minutos. Era a hora. Mariella chegaria a qualquer momento. Geremia encheu os pulmões de ar e felicidade. Imaginou ela surgindo diante dele. Seria a reconciliação, seria o fim de uma angústia. A carta que ele a enviou dizia que hoje seria o dia, e que a esperaria no lugar de sempre. Se ela comparecesse, conversariam e ele, enfim, a surpreenderia com aquilo que tinha em mente. Caso contrário, se ela não aparecesse, estaria tudo acabado e nunca mais voltariam a se ver.


Agora o atraso era de uma hora. Geremia já não achava mais nada. Sua companhia nesse momento era a desgraça, o ódio, o horror e a sensação de abandono e desprezo. Isso! Ele estava sendo desprezado, pisado. Ela não viria mais. Agora sim, tudo estava acabado. Levantou e, na primeira lata de lixo que encontrou pela frente, enterrou aquele lindo buquê de rosas vivas. Caminhou como um derrotado, sem rumo. A cabeça baixa o fazia pensar na briga idiota que haviam tido. Eles se amavam tanto! Para Geremia, um pedido de tempo é um termino discreto, e se Mariella não havia comparecido ao encontro programado por ele, não era nem um termino discreto, era um fora do tamanho do mundo. Cinco anos juntos! Cinco anos que podiam ser perdidos por uma simples bobagem. Geremia deu o tempo que ela pediu. Será que não bastava?


Ele entrou na rodovia. O movimento era intenso. Caminhou pelo acostamento por vários minutos até chagar ao viaduto que cortava a cidade. Aquela altura o vento soprava mais forte, menos tímido, mais traiçoeiro e menos esperançoso. Seria impossível Geremia fazer aquilo. Mas, sem que ele pensasse, caminhou até o meio do viaduto e olhou para baixo. Metros. Muitos metros! Mas já estava decidido, aquilo já estava selado. Um caminhão passou às suas costas e uma lufada de vento quase o derrubou. O viaduto tremeu. Ele respirou e colocou primeiro um pé depois o outro em cima da proteção. Equilibrou-se. Qualquer outro movimento súbito e ele cairia. Tentou respirar. Colocou a mão no bolso e sentiu a caixa. Gritou o nome de Mariella e disse aos céus que a amava. Depois disso, o abismo o acolheu, engolindo-o.


Sim, eles se amavam. E sim, tenho saudade do meu filho. Se ele tivesse esperado mais um pouquinho, apenas mais um pouquinho, não teria se suicidado. Mariella, o grande amor de sua vida, não o havia abandonado. Estava se arrumando para ele, estava se arrumando para o seu grande amor, conforme me explicou depois. Mas o mais triste não foi isso. O mais triste, o pior de tudo, foi vê-la chorando ao receber de minhas mãos uma caixinha que foi encontrada junto ao corpo do meu filho. Dentro dela havia um par de alianças e um bilhete com a seguinte frase: “Quer se casar comigo? Amo você!”





sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

O ANJO DOS NOSSOS DIAS



Aos poucos ela foi se aproximando daquela foto que descansava sobre a estante. Tímida, curiosa, foi pegando um a um dos porta-retratos que embelezavam aquele cômodo da casa. Uma menina linda, com um corpinho perfeitamente pequeno e um longo cabelo encaracolado que lhe caia pelas costas. Misteriosa e ingênua como somente uma criança pode ser, Isabella era a filha mais bonita que eu poderia imaginar. Uma menina que esbanjava esperança, amor e promessas de um futuro maravilhoso.


Bella pegou aquele porta-retrato com toda a segurança de uma criança, e observou cada traço daquele objeto. Rezei para que ela não me dirigisse uma só palavra a respeito da foto que ali estava havia anos, mas não pude evitar.


— Papai — ela começou, olhando ora pra foto, ora pra mim ―, quem é esse homem?


Fiquei sem ação. Lentamente me dirigi até ela, afaguei seus cabelos e tomei aquela foto em minhas mãos como se fosse um tesouro. Com coragem, soltei aquelas duras palavras que rasgaram meu coração.


― Esse minha filha... ― tomei fôlego. ― Esta foi à pessoa mais importante na vida de seu pai. Foi a pessoa com quem seu pai aprendeu a viver. Um anjo na minha vida... — E agüentando firme às lagrimas que se acumulavam em meus olhos, olhei novamente para o porta-retrato. — Foi o irmão que seu pai nunca teve.


― Mais importante que eu e a mamãe?


― Claro que não querida ― disse sorrindo. ― Claro que não.


Ela começou a rir timidamente, e tomada por uma felicidade indecifrável, saiu correndo até a cozinha, ao encontro de sua mãe.


Com os olhos presos à nossa eterna fotografia, desprendi um riso dos lábios como num súbito instante de alegria. Minhas mãos seguravam aquele porta-retrato com fúria, enquanto as lágrimas iam começando a se externar. Em silêncio, passei o polegar direito sobre a foto e acariciei o vidro, me perguntando por que a vida tinha que ser assim.


Amaldiçôo-me diuturnamente por ter enterrado dentro de mim uma saudade que corrói meus ossos e cospe faíscas de momentos vividos. Penso nas coisas que fizemos e nas que deixamos de fazer. Talvez a vida esteja certa, e ainda um dia, ela há de nos unir.


Suspirei e olhei para o teto, em busca de fôlego. Continuei acariciando a foto e, sem força, percebi que meu rosto estava úmido. Quando pisquei, uma linda lágrima caiu sobre aquele objeto, sobre nós dois, sobre nossas vidas. Pus aquele porta-retrato novamente em seu lugar, dei alguns passos para trás, e parei junto à porta, de costas para a sala. Ali fiquei chorando como uma criança.


Ao me virar novamente, vi a beleza de minha filha estampada diante de minhas órbitas. Com o seu rostinho triste como um anjo, ela me fitava com angústia e ternura.


― Papai, por que você está chorando?


― Nada não minha filha ― respondi. ― Venha cá com o papai.


Abracei-a com força. Seu corpo me confortava e aos poucos fui me acalmando. Queria que aquele fato jamais tivesse acontecido. Queria que tudo fosse mentira, mas a vida sabe furtar de nós as sementes que colhemos e como recompensa, nos deixa mergulhado em lembranças que permanecem em nós como a memória viva de um sopro de saudade.


― Nunca esqueça que o papai ama muito você está bem?


Beijei-a suavemente, como se esse fosse um beijo para a eternidade, e ela limitou-se a assentir vagarosamente entendendo precocemente o verdadeiro significado de minhas palavras.


segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

PAPAI-NOEL DO INFERNO


Para o pequenino Ed, o natal sempre foi motivo de muita alegria. Ele acreditava em Papai Noel, porém, nunca teve a glória de vê-lo. E agora, com 8 anos de idade, sonhava em ter essa grande oportunidade de ficar frente a frente com ele.

– Ed, se você não se comportar, o Papai Noel não vai lhe trazer presente – dizia seu pai, toda vez que ele fazia algo de errado.

Entrava ano e saia ano e Ed, todo dia 25 de dezembro acordava cedo e corria até a árvore de natal, que ficava na sala, defronte a lareira onde, segundo a sua mãe, o Papai Noel descia e depositava o presente que ele tanto havia desejado.

Agora, carregando oito precoces primaveras, o pequeno Ed começava a se perguntar quem era o Papai Noel, de onde ele vinha e como ele chegava até sua casa. A noite era 24 de dezembro, e depois de voltarem da celebração de natal e de jantarem os três juntos, Ed olhou para aquele pinheirinho todo colorido, com bolas coloridas, com enfeites de Papai Noel, luzes piscando, um presépio ao pé da árvore, e pensou consigo mesmo: Hoje verei o Papai Noel! Hoje ficarei acordado para vê-lo depositar ali o meu presente. Mas Ed pensou alto, e sua mãe, infelizmente, ouviu seu pensamento.

– Como é mocinho? Nada de ficar acordado hoje à noite – ela o repreendeu. – Saiba que o Papai Noel não gosta que as crianças fiquem acordadas. Alias, vou lembrá-lo de que ele anda por ai à noite, e quando percebe alguma criança acordada começa a fazer barulhos estranhos, como arrastar correntes, e coloca essas crianças em seu saco.

– É verdade, pai? – assustado, ele o interrogou.

– Claro, Ed. Agora vá dormir. Amanhã você terá uma surpresa.

Carregando esse maldito pensamento, Ed deu boa noite aos pais e subiu para o seu quarto, onde tentou dormir. Pensou no que a mãe havia lhe dito e sentiu uma pontada de medo, mas logo, se lembrando da surpresa, abriu um riso. A noite andou, mas Ed não conseguiu pregar os olhos. Lá fora a neve caia lentamente e ali dentro o frio e a angustia não o deixavam pegar no sono. Não se sabia ao certo à hora, sabia-se apenas que era alta madrugada quando, de repente, Ed levantou. Estava decidido: iria esperar o Papai Noel lá embaixo. Veria o bom velhinho pela primeira vez!

Desceu as escadas cuidadosamente e, velado por uma penumbra cálida e fria, não ligou as luzes. Lá embaixo observou a neve cair e, de pijama, ficou em frente à lareira, esperando-o. Minutos se passaram até que, de súbito, o incomodativo barulho de correntes lhe assaltou os ouvidos. Ed se enregelou de medo. Fitou a lareira e escutou um estrondo. Lentamente começou a sair dela uma figura vestida de vermelho, barba branca e com um saco às costas. Ed sorriu, talvez aliviado ao ver o bom – ou mau – velhinho.

– Papai Noel! – estupefato, disse a si mesmo. – Você existe...

A figura de vermelho caminhou até ele e o pegou no colo. Ed estava a centímetros do rosto do Papai Noel. Sentia a respiração do homenzarrão vestido de vermelho que transmitia paz, amor, bondade e... Ilusão! A figura que o segurava não era aquilo que as crianças ou que algum de nós de fato havia de imaginar que fosse.

Com uma das mãos segurou Ed pelo pescoço e colocou-o no chão. Do seu saco extraiu um pequeno machado e, de um golpe só, em meio à escuridão da noite, degolou o pescoço do menino e deixou a cabeça de lado. Depois, com o mesmo machado, fez picadinho de seus membros. Terminado, a figura monstruosa tirou a mascará que cobria seu rosto. Seu aspecto era fantasmagórico. O Papai Noel era do inferno!

Pela manhã os pais de Ed acordaram e foram até a sala. Perceberam que além dos presentes que eles haviam depositado sob a árvore, duas outras caixas jaziam ali. Viram seus nomes sobre elas e entreolharam-se. Abriram os presentes ao mesmo tempo, e quando conseguiram ver o que dentro havia, seus sorrisos rapidamente desapareceram. O pai avistou a cabeça decepada do filho em uma caixa menor, e a mãe, de forma horrenda, os membros do pequenino Ed na caixa maior. O natal macabro acabava ali!

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O SONHO QUE JAMAIS DEIXAREI DE SONHAR


O ser humano só morre a partir do momento que deixa de sonhar. Por isso hoje, depois de tanto tempo sem vê-lo, sem tocá-lo, sem senti-lo me abraçando, conservo em minha alma o sonho secreto de ainda reencontrá-lo. Nunca compreendi como a vida pode ser tão ingrata, mas, a partir do momento que ela extrai algo de nossas mãos, começamos a entender que, na verdade, ela apenas quer nos dar uma lição, e que todos os atos não dependem dela, mas sim, de nós mesmos.


Hoje estou aqui, faz frio ao meu redor e, acreditem, me encorajo a estar aqui. Sentada em frente ao mar, nessa areia fina e fofa, olho as ondas que quebram num murmúrio triste de saudade. Lembro-me dele. Sim, lembro-me dele. A saudade é tanta... Vislumbro a praia vazia, o vento que ligeiramente me abraça, me esfria, as gaivotas que dançam no céu, me observando, assim como eu observo a imensidão azul do mar sem fim. Lá no horizonte o sol se punha, devagarzinho, em total solidão. Os últimos raios pincelam a areia da praia, assim como as lágrimas que adornam meu rosto triste.


— Sinto tanta saudade de você! — digo a mim mesma, olhando as águas agitadas.


Subitamente me vem uma imagem longínqua, mas sempre presente, do nosso último encontro. Ele, tão amável e carinhoso, disse-me que jamais queria me perder. Olhei-o e dei-lhe um beijo. Em seguida, ele respirou profundamente e me fitou.


— Quisera eu que o mundo acabasse agora, meu amor.


— Por quê? — perguntei, curiosa.


Ele soltou um riso.


— Assim, desta forma, morreríamos juntos, e nossas almas viajariam para a eternidade, onde ficaríamos perpetuamente unidos, num fim totalmente nosso.


Seu beijo desfez meu riso de repente, mas, enquanto sua boca me possuía, pude sentir algo úmido em meu rosto. Era uma lágrima. A única lágrima que até hoje percebi sair de seus olhos verdes.


Um emaranhado de lembranças avulsas me persegue diuturnamente. É estranho, pois não posso ver o mar. Me lembra ele. Não posso ver o pôr do sol. Me lembra ele. Não posso ouvir a chuva. Me lembra ele. Não posso deitar a cabeça sob o travesseiro. Me lembra... bom, eu não posso nem respirar, pois isso também me lembra ele.


Antes que me esqueça de falar, meu nome é Gabriela, e digo, acima de qualquer coisa, que amo a vida e as pessoas que me amam – nesse momento sinto o cheiro da praia, os sons, o frescor da brisa que me brinda com o seu doce ar de natureza, amor e... saudade!


Contudo hoje, aqui defronte ao mar, recordo os momentos bons que juntos passamos e conservo os sonhos para não deixar cair-me em desgraça. Talvez ele esteja pensando em mim em algum lugar, talvez não. Talvez ele até esteja morto – cruzes, que coisa idiota eu disse!. Não, morto ele jamais estará, pois vive loucamente dentro de mim e sempre viverá.


Espere! Lembrei-me de outra coisa que ele me disse certa vez. Caia uma garoa fina e estávamos caminhando próximo a praia sob um guarda- chuva negro que ele carregava.


— Quando eu morrer, quero que não chore. Transforme as lágrimas em lembranças boas que juntos tivemos. A morte não deve ser o sinal da tristeza, afinal de contas, essa vida é apenas passageira, já a outra, é eterna. Olhe para trás e veja o que eu fui, vivi e fiz.


Agora, lentamente eu me levanto. Enxugo uma lágrima, e tenho certeza que esse é um sonho que jamais deixarei de sonhar, porque sei que ele está me esperando, e que sua morte, apesar de me fazer sofrer, me acalma, pois lá de cima, ele sabe me cuidar.