domingo, 31 de julho de 2011

A FONTE DE INSPIRAÇÃO


Com o tempo, quem entende do assunto, começa a compreender que o grande erro da maioria dos escritores é ter em mente que escrever é algo que deve ser feito para que os outros leiam, quando na verdade esquecem que a verdadeira arte de escrever consiste em fazê-lo pelo simples prazer de mergulhar em um mundo seu, um mundo íntimo, e que as leituras são uma simples conseqüência pelo seu esforço e dedicação, um valor auferido àquilo que suas palavras conseguiram transmitir.

Alguns escritores nutrem algumas inspirações, sem as quais é difícil continuar escrevendo. Esse é o caso de Eddie, um escritor cujos livros lhe renderam bons níveis de renda, e cuja fama não mais lhe agrada como nos primeiros passos de sua carreira. Suas palavras sempre foram frutos de uma mágica inspiração: uma mulher que jamais chegou a beijar e a ter em seus braços. Seu nome era Catherine, uma dama de traços finos, bondade aos montes e beleza aos milhares. Ela perambulava em seu pensamento, povoava seus sonhos e era retratada em suas frases. Nem mesmo ele soube explicar o que, de fato, tornava Catherine tão especial e diferente.

– Eu não consigo entender... – disse Eddie certa vez a um amigo – Eu só consigo escrever quando penso nela. É impressionante, parece uma droga, uma praga, uma doença. É como se as coisas... os livros que eu escrevo, dependessem dela.

– Tem certeza que você não está apaixonado?

– Mas como poderia? – soltou Eddie, devolvendo o copo à mesa. – Como poderia estar apaixonado sem nunca tê-la tocado, falado com ela... Bom, realmente não sei se isso é estar apaixonado como você diz, mas o fato é que é algo muito estranho.

Existe alguma fonte inspiradora para cada escritor? Existe alguma pessoa ou coisa capaz de fazer as letras deslizarem pela ponta da caneta e caírem preguiçosamente no papel? No caso de Eddie, sem sombras de dúvidas sim, e a sua fonte inspiradora tinha nome e beleza, e se chamava Catherine, uma mulher encantadora.

Algumas noites depois da conversa com o amigo, Eddie se viu perturbado durante a madrugada. Visões o perseguiam e a insônia o mantinha acordado, fazendo-o andar de um lado para o outro, naquela sensação estranha de que alguma coisa talvez pudesse estar acontecendo. Nessa mesma noite, onde a chuva e os raios o acompanhavam nessa dolorosa luta, tardou a dormir. E, o que tinha sido ruim, veio a se intensificar com a chegada do amanhecer, que trouxe, além da névoa fria e densa, a notícia da morte de Catherine. A causa de sua morte ninguém nunca soube, pois fora achada sem vida, em seu leito, misteriosamente inerte, como se estivesse dormindo.

Eddie se viu abandonado, sem outras inspirações. Derramou lágrimas de dor por dias a fio e pelos mesmos dias não conseguiu escrever. Toda vez que fazia menção em começar algum texto, uma sensação estranha o percorria, uma negror nublava sua visão e nada vinha em sua cabeça. Ele não conseguia mais escrever, e somente pensava na morte de Catherine. Por meses, anos, ficou sem escrever uma única palavra sequer. Não tinha por que escrever, e fazê-lo não mais lhe dava prazer. Escrever havia se tornado uma tortura, por isso, até seus últimos dias, desde a morte da sua inspiração, Eddie nunca mais escreveu, e morreu sem escrever uma palavra a mais.

Sua morte aconteceu exatamente seis anos depois que Catherine o deixou, literalmente, sem palavras. O escritor suicidou-se, jogando-se de um desfiladeiro como se estivesse se entregando às sombras, quando na verdade estava enterrando a dor, extraindo de sua alma aquele remorso que o percorria.

As palavras são escritas sempre com o retrato de alguma inspiração e pelo simples prazer de escrever; quando assim não for, um escritor está condenado a morrer com a sua vaidade e com o seu remorso presos a um coração enganador, cheio de tristezas e desilusões.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

O TOQUE DAS ALMAS


Suponho que alguma vez você se perguntou para aonde vão as almas daqueles que a morte vem buscar. De fato essa é uma questão difícil de ser interpretada, mas para um menino em especial, a coisa é bem clara. Kévin, de 12 anos de idade, pálido, taciturno, imerso em solidão, não possui amizades normais. O que quero dizer é que Kévin é amigo das almas das pessoas que nos deixaram.


Não sei se isso pode ser considerado um dom, mas que é assombrador, isso é. Segundo Kévin as almas estão em todo lugar e em toda a parte, aonde quer que vamos ou estejamos. Você já parou pra pensar que em vez do vento, o que sentimos é o toque das almas? Para o pálido garoto, é exatamente isso que acontece: as almas nos tocam!


Uma noite, Kévin estava na sala com os pais quando de repente sua mãe sentiu um arrepio. Imediatamente o menino olhou às suas costas e observou a alma de uma senhora roçando lentamente os dedos pela nunca da mãe.


– Tem alguém atrás de você, mãe – anunciou ele.


– Como assim, Kévin?


– O arrepio que você sentiu é uma alma lhe tocando...


– Cruz-credo, Kévin, pare com isso! Vai me assustar.


Em segundos, a senhora desapareceu.


Em outra oportunidade, quando estavam na mesa de jantar, seu pai sentiu frio. Kévin observou e viu que um menino, um jovem, acariciava os ombros do pai. A alma do jovem lhe sorria e ele retribui o sorriso.


– O que foi Kévin? – perguntara o pai.


– O seu frio... é uma alma que está lhe tocando os ombros...


Ter a capacidade de ver as almas talvez não seja tão agradável assim, mas Kévin não se sentia perturbado com o estranho fato. Às vezes, em momentos diversos, encontrava-se com almas fazendo coisas mirabolantes, e, em todo lugar que ia, lá estavam elas tocando as pessoas, acariciando-lhes a pele... O fato é que ninguém nunca se perguntou porque Kévin sorria sozinho ou fazia gestos sem ter uma pessoa por perto. Observavam e achavam que o menino, munido de insignificante presença e portador de medíocre saúde, solidão e falta de amizades, tivesse problemas com alguma coisa provinda da mente.


Mas essa sua vida de admiração de almas perdurou por pouco tempo. Certa manhã Kévin foi encontrado sem vida, na cama do seu quarto. Morrera jovem, prematuro. Seu corpo havia deixando a vida, mas a sua alma... Há que se perguntar: você já parou pra pensar que as almas das pessoas que amamos podem viver por ai, entre nós, nos cuidando, nos guiando, nos tocando nos arrepios ou nos acariciando no vento? Isso é uma incógnita, cuja veracidade era atribuída apena a Kévin, e a dúvida, além de nós, aos seus pais também.


E foi isso que sua alma fez depois que seu corpo se foi: cuidou dos pais, tocou-os, acariciou-os e, para que acreditassem nisso, escreveu-lhes uma carta.


“Papai e mamãe.


As pessoas que amamos nunca morrem, nunca nos abandonam. Sei que em vida vocês nunca chegaram a acreditar em mim, mas agora que estou morto, peço que acreditem. Minha alma vive por ai, a guiá-los, a cuidá-los, e toda vez que sentem arrepios ou frios repentinos, sou eu quem os toco ou acaricio.

Quero dizer que as pessoas não se vão para sempre, pois mesmo depois de mortas suas almas permanecem por aqui, ou seja, nossa presença sempre será sentida.


Kévin.”

sexta-feira, 24 de junho de 2011

FREDERICO EM SOMBRAS


A noite dormia inerte, apenas abençoando a cidade taciturna que ostentava uma penumbra cálida, lúgubre e pronta para observar de camarote a névoa densa, sentindo o hálito frio da brisa vivida que vinha de um lugar inexistente e que começava a mergulhar nas entranhas, esconderijos, becos e lugares sagrados e santos da bela, mas um tanto quanto sombria cidade de Frederico Westphalen. A névoa âmbar trazia o cheiro de um segredo incomum, e aos poucos, bem lentamente, ia inundando as ruas, trazendo a tona uma sensação de prazer, temor e mistério.


Voando em direção a cidade, a névoa translúcida vislumbrou longinquamente os contornos dos prédios, casas, fábricas e, em especial, os da Catedral Santo Antonio destacando-se como o monumento de maior envergadura, que adorna a área central de Frederico Westphalen e assalta, em primeiro plano, aos olhos viajantes de quem surgisse daquela direção.


Aos poucos ela começou a tomar conta, desde os bairros até o centro da cidade. Agindo com astúcia e louvor, a névoa estendeu-se como uma serpente rastejante por sobre as avenidas largas e clássicas do município, deixando o prazer suave de seu mistério impregnado por onde passava. Tentando acostumar-se a doce penumbra da madrugada sombria, a névoa viajou por cada canto, afoita e fantasmagórica, lapidando a silhueta de condomínios e mansões, e deslizando por entre os lugarejos mais negros e tímidos da velha Vila Barril. Logo toda a extensão da cidade foi sendo engolida pela donzela da noite, e lugares propícios ao inevitável apossamento foram se contorcendo ao sentirem seu doce hálito.


No alto da cidade, a Praça da URI, juntamente com a Universidade e com a escola José Cañellas, logo foram alvo da névoa. Outros lugares como o Viaduto e o Castelo no Bairro Santo Inácio também foram cobertos por ela. E, além do Parque de Exposições e do Parque abandonado e sombrio da Vila Faguense, a precursora Praça do Bairro Barril também sentiu a língua maldita do nevoeiro vir incrementá-la. Mas, além desses lugares e de todo o resto de Frederico Westphalen, a Rua do Comércio, em sua avenida deserta àquela hora e a Praça da Matriz, onde a Catedral Santo Antonio descansava, não ficaram por menos. O calçadão parecia um lugar sem existência, deserto e abandonado, e os contornos da praça pareciam labirintos de segredos inconfessáveis. Porém, o mais belo de tudo era ver a igreja matriz se embelezando com o nevoeiro que se sentiu lisonjeado em deixá-la quase invisível, sem sequer poder ver as torres e os relógios que, no silencio assustador da noite, badalavam as horas.


Depois de derramar o seu frescor por toda a cidade, a névoa frívola e inquieta tinha um rastro a mais para deixar...


(E seria ali, naquele clima de horror e vasta beleza, que sangue, loucuras e traições se fundiriam numa maldição demoníaca, cuja salvação somente poderia ser alcançada através da fé. E será que alguém teria capacidade de acreditar no Criador depois de uma descarga de tormentos e infortúnios? Um homem sim...)


Afinal, como uma cidade tão bela como Frederico Westphalen,

pode tornar-se, ao mesmo tempo, tão sombria?

A resposta está na Fé.



Créditos Foto: Jardel da Costa

domingo, 12 de junho de 2011

O SEDUTOR



A capacidade de fazer apaixonar, de embriagar o coração alheio com louvores de amor nunca teve como coadjuvante outro ser, com melhor ímpeto e astucia, do que Henrico. Talvez tenha ele sido o maior sedutor de toda a sua geração. Não havia mulher que não se sentisse atraída pelo homem capaz de fazê-las enlouquecer.

Henrico, porém, tinha o coração duro como uma rocha. Não possui sentimentos, e sua capacidade de amar limitava-se única e exclusivamente à sedução, e usava essa sua impiedosa habilidade para exercer outra atividade totalmente contrária ao amor. O que ele fazia talvez homem algum tenha se dignado a fazer: Henrico seduzia todas as mulheres, as levava para a cama, fazia amor com elas e, por fim, as assassinava, num gesto de amor e ódio, tendo como pano de fundo um prazer duplo, que se consumia apenas com o deleite de ver o sangue escorrer.

Sua capacidade de sedução, demasiado elevada, não se comparava a nenhum outro ser. Olhos misteriosos, azuis da cor do alto mar, cabelos encaracolados e longos, que lhe caiam levemente pelos ombros, negros como a madruga, rosto desenhado pelas mãos de Deus, nariz afilado e lábios sedosos que, com qualquer movimento, derretia corações encarecidos de amor e afeto. Henrico tinha o dom de lograr de qualquer alma feminina o sentimento mais puro e encarcerado. Sua fala doce e leve, seu sorriso cheio vida, de um homem que sabe a virtude que tem, além da corpulência e aparência física, denunciavam, exteriormente, o desejo de tê-lo como amante cobiçado.

Primeiro vinha o encanto das palavras, escolhidas milimetricamente, depois as tocava como anjos tocam trombetas. O tato deixava-as ardendo em desejo e, aproveitando-se, Henrico as seduzia como somente ele sabia fazer, levando-as para cama e saboreando de cada centímetro de pele desenhada em cada silhueta que por ele passava. Por fim, as matava sem qualquer perdão, simplesmente pelo prazer de fazê-lo. Tirava a vida de toda e qualquer mulher que por ele se fazia seduzir, isso tudo por que ele não sabia amar, não conseguia amar e, desprovido de sentimentos, nutrindo uma alma rígida, um coração duro e um ar galanteador, seduzia as mulher e as matava.

A vida de Henrico seguiu assim, sem nunca ninguém ter percebido a malvadeza de sua admiração pelas mulheres. Cabe lembrar aqui que toda e qualquer mulher, por mais forte e resistente que fosse, apaixonava-se por ele, e ele, aproveitando-se da humilde intenção de tais mortais, realizava os desejos de sua alma.

Houve um momento da vida de Henrico em que tudo isso veio a despencar e a cair sobre terra. Existiu uma mulher, uma jovem e bela mulher que se instalou nas redondezas da cidade onde ele morava. Claro que ela também se sentiu atraída por Henrico e, por conseguinte, admirou-o e desejou-o até a consumação. O homem sedutor, cuja mulher nenhuma sobrevivia ao seu doentio amor, desejou, obviamente, a bela jovem. Mas, como somente o amor sabe pregar peças, na noite em que ambos estavam juntos, Henrico a seduziu com palavras, sentiu o adocicado cheiro de sua alma e a despiu com ímpeto, não fugindo de sua índole. Deitou-a na cama e, antes de fazer qualquer coisa, algo diferente o ricocheteou a alma, e por instantes, ele sentiu o coração, antes duro, doer, e, agora, súbita e inesperadamente, amolecer.

A jovem o esperava, queria ele, mas Henrico sentiu algo o invadir, e levemente começou a olhá-la com olhos diferentes. Sim, ela era bela, ela tinha um coração leve e doou-se a ele de corpo e alma. Porém ele não queria matá-la! Não queria furtar-lhe a vida e ludibriar-lhe amor. Henrico estava sentindo algo estranho, e por um leve instante de momento, quis beijá-la, abraçá-la e tê-la para si. Era estranho o que ele estava sentido e, deste modo, não fez o que estava predestinado a fazer e saiu de cima dela. Seu coração amolecera, sua alma agora se embriagava de amor. A bela jovem, sem que imaginasse, agora o fazia se apaixonar, fazendo o feitiço virar contra o feiticeiro.

Apaixonadamente perdido em pensamentos íntimos, Henrico deixou-a nua sobre a cama e saiu correndo da casa para nunca mais voltar, tanto ali quanto nas redondezas. Ninguém nunca mais soube do seu paradeiro, ele simplesmente sumira sem deixar qualquer rastro de vestígio, exceto, é claro, os corpos enganados de mulher apaixonadas que pelo sedutor se fizeram deixar levar. Há quem diga que Henrico morrera, há quem diga que seu coração se despedaçou. Eu, como fui a última a vê-lo, digo simplesmente que ele se apaixonou, não sei se por mim, mas pela vida.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

CUIDE BEM DELA


O sol descia com a mesma delicadeza que um senhor vendia rosas na avenida onde, neste exato momento, meus passos guiavam-me. A minha volta milhares de vultos de silhuetas apressadas andavam pra lá e pra cá. Eu sabia que a minha felicidade podia estar naquela cidade, em qualquer lugar, em alguma daquelas ruas.


Com as mãos enfiadas nos bolsos do meu casaco, viajei no tempo e comecei a relembrar – sem parar de caminhar – da nossa época. Tudo era tão lindo... que hoje até tenho medo de recordar. Havia sóis em nossos dias, glórias em nossas aventuras, e não era como hoje, que vejo trevas num mundo lúgubre e obedeço ao infortúnio que a vida me ofereceu. Hoje quando vejo certos casais andarem juntos, com as mãos unidas, sinto pavor ao me ver mergulhado na solidão que a ausência dela me fez permanecer. É difícil olhar um beijo proferido por amantes, pois imagino quanto tempo perdemos – ou ganhamos – entre carícias e outras loucuras de amor cuja realidade éramos testemunhas.


O bar que hoje entrei não tinha nada de especial, a não ser pelo fato de que os vi entrarem ali várias vezes, e confesso: entrei apenas por entrar, fumar um cigarro e beber alguma coisa. Eu usava uma bota bege desbotada, uma camisa xadrez das mais comuns, um casaco de couro, um jeans e um boné com a aba bem dobrada. Quando entrei optei pelo balcão. Sentei em um banco e, exausto, pedi uma dose de uísque. A garçonete deve ter pensado: quem é esse homem? Imagina só, a minha barba estava por fazer, meu cabelo saia por debaixo do boné, e a feição séria e fechada, além das minhas vestes rústicas, podia levar a ela a idéia de que eu nutria um aspecto louco e moribundo.


Antes de chegar a minha bebida, acendi um cigarro e contemplei o ambiente, girando os olhos para todos os lados. O bar era pequeno, com poucas mesas, um balcão e uma iluminação fraca. Mas, enquanto me sentia íntimo daquele local, e ocupava o tempo saboreando o cigarro e bebendo aquela dose certeira de uísque, eis que aquilo que eu temia aconteceu. Era ele. Um homem com aparecia saudável, sociável e apresentável adentrou o recinto e sentou-se ao meu lado. Não o olhei, apenas percebi que também pedia uma dose de uísque e, enquanto aguardava, desfazia levemente o nó da gravata e afrouxava o colarinho. Senti quando jogou seus olhos sobre mim. Foi então que pensei: como ela pode se apaixonar por esse cara?


O fato é que o tempo nos separou, a vida, o destino, a maldição de alguma coisa nos separou. Nos amávamos, havíamos nos prometido, mas algo nos separou. O tempo passou, os contatos cessaram e nunca mais um soube do outro. Mas eu sempre a amei, sempre a tive em minha memória e coração. E agora era, de fato, um momento de dor. Como será que ela estava? Será que estava bem? Será que precisava de alguma coisa? Eu não preciso saber disso, apenas quero a sua felicidade, e que os dons da glória e do amor a acompanhem ao eterno. E, foi pensando nisso, que virei meu corpo em direção àquele homem. Ergui a cabeça e olhei em seus olhos.


– Por favor, cuide bem dela – disse-lhe com o ar duro e o coração em pedaços.


Ele me encarou, não entendendo, mostrando estupefação.


– Ela merece todo o amor do mundo – continuei. – Tudo o que eu não consegui dar a ela, rogo para que você a dê, oferecendo a ela o que jamais consegui lhe oferecer.


Segurei uma lágrima presa dentro dos olhos.


– Quem é você? – ele perguntou, por fim.


– Sou a pessoa que mais a amou nesse mundo.


Assim que proferi essas palavras, deixei o dinheiro em cima do balcão, dei uma última olhadela pra ele e deixei o bar. Percebi que ficava atônito, sem se mexer. Sai porta afora e deslizei pela avenida, me confundido com o mar de pessoas que por ali perambulavam. Às minhas costas ouvi um grito de “Hei, espere!”, mas era tarde, eu voltava a me enterrar em meu mundo de saudade e dor. E então, quando percebi, minha barba umedecia lentamente, pois as lágrimas já não me deixavam em paz, e a ausência de quem sempre amei permanecei encravada em minha alma.


segunda-feira, 28 de março de 2011

VISITANTE MACABRO


A chuva finalmente havia dado uma trégua naquela noite, e quando Paolo chegou, depois de ter ficado trabalhando por horas, aproximou-se e percebeu que a porta estava entreaberta. Havia algo estranho, e depois de hesitar, empurrou-a para entrar.


Lentamente ele foi tentando acostumar os olhos àquela penumbra gélida, até conseguir ligar a luz. Ligou. E desejou jamais ter ligado. Seus olhos amaldiçoaram-se ao ver aquele horror. O imenso corredor se abria a sua frente, e marcas de sangue tanto no chão quanto nas paredes, fizeram-no perder o equilíbrio. Aquilo não podia ser verdade! Tentou caminhar mas não conseguia sair do lugar. Levou a mão à boca, e foi ai que observou mais detalhadamente: havia algumas pegadas que saiam da sala. Paolo tomou coragem e mesmo com o semblante inundado em medo, viu-se decidido em ir até lá.


A enorme sala se abria a sua frente. Num canto o seu barzinho e no fundo uma lareira, ambos velando aquela cena maldita de terror. E no meio da sala... lá no meio estava ela. Bia, sua adorável mulher. Paolo a reconheceu pelas roupas. Apenas! Em lágrimas, ele sentiu o chão lhe faltar. Seus olhos só viam sangue, nada mais que sangue.


Não quis mais olhar o estado em que se encontrava sua mulher. Não quis acreditar que aquilo era real. Bia estava sem a cabeça junto ao corpo. Alguém a arrancara. Estava coberta de sangue e não havia sinal de luta, apenas de horror... mais que horror...


De repente ele ouviu um barulho. Era como um gemido estranho, algo prazeroso. Vinha do quarto. Então Paolo levantou e seguiu até lá, pisando sobre o sangue de sua mulher. Quando ficou sob o umbral da porta, de frente para o quarto onde eles muitas vezes promoveram noites quentes de prazer, ele estancou. Nunca tinha visto uma coisa daquelas antes. Aquele demônio prazerosamente comia, no centro do quarto, a cabeça de sua mulher. A criatura tinha facilmente mais de dois metros de altura e em vez de duas, tinha quatro pernas e um rabo que riscava o chão. Das suas costas saiam lanças afiadas, cortantes e destruidoras. Tinha ainda uma cabeça enorme, com chifres pontiagudos e poucos fios de cabelo. Dos seus braços saltavam filetes de sangue e, à medida que aquela coisa ia comendo a cabeça de Bia, gosmas beijavam o chão.


— Quem é você, seu demônio? — ele nunca tremera tanto em sua vida.


Parou! Aquela coisa estancou e lentamente foi virando para Paolo. Sua cara parecia vir o inferno. Abriu a boca e mostrou os enormes dentes, cheios de vestígios dos miolos de Bia. Os tecidos e os nervos de Paolo se enregelaram com tudo aquilo.


— O que você quer... o que fez com ela?


Nunca obteve resposta. Aquela coisa macabra se aproximou dele e, de dentro dela saiu uma enorme navalha que em um só instante decepou a cabeça de Paolo, fazendo-a saltar corredor afora. O seu corpo, conseqüentemente, caiu no chão.


Não era bem oito horas da manhã quando os policiais chegaram na casa do casal. Assim que entraram, de cara viram o corpo de Bia, sem a cabeça.


— Meu Deus! Gente... venham até aqui! — gritou o policial que estava no quarto.


Paolo estava lá. Seu corpo, sem cabeça e numa posição impossível, estava pendurado na parede por estacas gigantes. Uma imagem satânica. Os braços e as pernas haviam sido comidos, e pedaços de carne jaziam dependurados, deixando a mostra os seus ossos. Na região do coração havia um buraco, que deveria ter sido arrancado de um só golpe. Já no seu estômago, tripas saltavam como se fossem cobras saindo do ninho. Havia muito sangue... demais!


Uns policiais vomitaram e outros não quiseram mais ver aquele ritual diabólico. Quando um deles saiu pelo corredor, notou que havia pisado em algo. Não esmagou, apenas sentiu. Era uma coisa verde, com num formato arredondada. Demorou em perceber o que era, mas quando finalmente compreendeu, viu que pisava em um dos olhos de Paolo.


terça-feira, 15 de março de 2011

PREMATURO



O que mais poderia desejar um jovem casal do que um fruto proveniente do seu amor? A notícia veio na hora do jantar. Ele saboreava a comida silenciosamente, e ela, querendo compartilhar aquela informação, permanecia a sua frente, inerte.


— Estou grávida — soltou ela.


De repente tudo ficou parado: o alimento que ele mastigava estancou, e o braço parou no ar quando novamente levaria o garfo à boca. Ele arregalou os olhos. Engoliu em seco aquela noticia e soltou o único talher sobre o prato.


A gravidez iniciou com normalidade. Às vezes ela sentia algumas pontadas, às vezes o estresse a acorrentava a certo ódio. Mas, em outras, e com mais freqüência ela começava a sentir nojo do que carregava em seu ventre. A jovem bela e delicada, começava a engordar, a criar manias e, além disso, a visão de sua barriga causava-lhe certo nojo.


— E como vai o nosso bebe? — perguntou ele, certa vez.


— Nem me fale. Tomara que venha logo essa desgraça, não agüento mais carregar isso dentro de mim como se fosse um incomodo.


Ela, que tanto desejou um filho, começou, pouco a pouco, a não mais o querer. O estresse, o ódio, o rancor e o desejo de fugir, envolveram-na em um manto de negror onde nem a psicologia conseguia explicar. Mas, finalmente chegou o dia de conhecer o sexo do inocente. Deitada na cama, o médico começou a examiná-la e, franzindo o cenho, falou:


— É... é estranho. Não há sinal algum de... lamento. Você não está grávida.


— Como não? — ela se espantou. — E esse meu barrigão de leitoa é o que?


Os meses passaram, e a barriga continuava crescendo. Muitas dores começaram a lhe golpear, e ela sentiu que havia alguma coisa dentro de sua barriga. Mas o que? Seis meses depois da notícia compartilhada à mesa, eles resolveram fazer o que deveria ser feito.


Na sala cirúrgica, os médicos espantaram-se com o tamanho de sua barriga. O marido observava do lado de fora, pelo vidro. E, quando os médicos ia começar a manusear os instrumento, eis que algo sob a pele começava a se mexer. Todos ficaram assustados. Alguma coisa viva queria sair de dentro dela. E, de repente, como se uma navalha interna estivesse trabalhando, seus tecidos foram se rasgando, a barriga foi se abrindo, o sangue foi escorrendo, e algumas vísceras começavam a aparecer. Mas foi quando a barriga se abriu de uma maneira impossível, que o espanto e o horror os invadiu.


Das entranhas daquela bela e amaldiçoada jovem, uma figura monstruosa assaltava aos seus olhos dos presentes. Aquilo que se externava tinha a pele vermelha, não pelo sangue, mas por alguma outra coisa. Os olhos gigantes, quase do tamanho da cabeça não eram horizontais, mas sim, verticais. A boca continha dentes afiados e eram para fora, assim como as orelhas. No couro cabeludo, a criatura ostentava apenas alguns fios de cabelo. As mãos, tão enormes quanto a cabeça, tinha três dedos afilados e afiados como navalha. As pernas sim, eram pequenas, e continha pés de nadador, sem dedos. Quando falou, fez gelar o sangue de todos. Era o horror em pessoa.


— É o demônio — disse um médico.


O marido não acreditava no que via. Fechou os olhos e apenas escutou o terror e o pesadelo acontecer ali dentro. Quando voltou a abri-los, viu o massacre que a criatura havia feito. Todos ali estavam mortos, decepados, fatiados como pão. A sala branca agora estava vermelha de sangue e resto de corpos. E o filho que ela sempre desejou, e que passou, com o tempo, a não querer mais, havia desaparecido — ou voltado para as sombras do inferno.


Dentro da sala, a única alma viva era a da jovem.