sábado, 25 de fevereiro de 2012

TODO CARNAVAL TEM SEU FIM



O sol desponta preguiçoso, resplandecendo um alvorecer com cara de ressaca, como se a noite que passou deixasse um rastro de saudade. Agora, enquanto o sol lentamente demorar a despertar, passos leves e sutis caminham por entre uma ruela qualquer. O som barulhento dos tamborins, clarinetas e bumbos, que outrora construíam canções de alegria juntamente com trompetes e trombones, agora dão lugar ao silêncio seco e vazio de um dia em festa que já passou.

Ele anda na extrema solidão, os sapatos são a única canção que algum ouvido pode ouvir àquela altura da manhã. No corpo, a veste doce de uma fantasia que soube preencher as noites com felicidade. O homem, cuja relação entre ele e o que acabou de acontecer, não há de morrer tão logo, desce as ladeiras com seu chapéu na mão, cabeça baixa e ébrio de prazer e de furtivas lembranças e saudades. No chão, confetes e serpentinas se confundem com os sapatos velhos do homem triste que há poucas horas atrás jogava os mesmos confetes e serpentinas para o alto, num júbilo a mais nobre festa popular que, chamada de carnaval, sem que possamos pensar, sempre tem seu fim.


O bloco passou e a banda já tocou o samba empolgante que agitou os corações. Os beijos foram dados, as náuseas foram atropeladas e o ar que sempre levantou as multidões, agora acabou. Tudo acabou!

Assim, todo carnaval tem seu fim! Quer tenha sido bom, quer tenha sido ruim.

Na praia, no campo, sala ou salão, ruas e avenidas e até quem não saiu do chão. A festa do momo, do que bem quer e do que quer mal também, ao que pulou e correu e ao que em casa ficou, assim como quem nada quer.

Mas ele continua caminhando. Suas noites de alegrias, risos e alguma coisa a distrair a cabeça passaram. O colorido se foi, o sonho maravilhoso se foi e se foi também toda a multidão que por aqui já passou. A cabeça baixa traduz o sentimento que agora o completa: vazio. É como se algo faltasse. E de fato, falta. E faltará. Faltará a chuva de papéis, o samba-enredo, o batuque sem fim, a cerveja gelada na esquina, o ritmo acelerado dos sapatos ao dançar no tom, as damas, as chamas, as colombinas... ah, as colombinas, essas muita falta farão...

Lentamente o sol esbraveja-se no ar. A rua que até pouco tempo jazia escura, agora se preenche de luz, que acompanha com afinco os passos de mais um folião. E ele continua descendo rumo ao seu destino. Passos fracos, boca seca e talvez com os olhos quase se fechando, rendendo-se ao sono que está prestes a vir lhe pegar. Que seja assim o final da última noite de alegria... mas de repente, o coração tão curtido na folia, olha para o lado e descobre um casal, no portão de uma humilde casa. O moço, tão disposto, acaricia o lindo cabelo dela, que se rende encantadoramente aos encantos dele. Decerto acabaram de chegar em casa também, vindo do seu nobre carnaval, e assim então quisera Deus, que esse fosse o destino desse jovem casal. A moça o abraça e ele a surpreende com um beijo. Aos sons dos seus sapatos e olhando o que não queria, o pierrot se lembra da noite passada, e da colombina, que lembrar nem deveria.

O pierrot chora, foi-se ao longe o que lhe encantou... quisera ela um arlequim, numa noite sem fim? A lágrima escorrega, agora já passou o tempo de recordar.

Ah, se o carnaval fosse o ano inteiro! Mas, assim como a vida, ele não é pra sempre. O seu final, porém, até pode ser confundido largamente com uma morte, mas uma morte que faz ressuscitar a cada ano os gritos de canto em festa, de sons de orquestra, e de barulho de cortinas, quando se inicia uma nova peça.

Os sapatos silenciaram. Tudo acalmou. Dorme, descanse, afinal, o carnaval já terminou. Agora nasce um novo dia, um novo ano ressurge, tanto pra você quanto pra mim, mas quanto à folia, é inevitável dizer, pois todo carnaval tem seu fim.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

VARAL DE CABEÇAS


Ser motivo de piadas nem sempre é tão saudável assim, e é conhecendo a história de Beni McCarthy que se descobre que existem coisas mais horripilantes do que a gente imagina, e que quando pensamos que já vimos de tudo, a vida mostra que não...

Desde a infância Beni era chamado de “Cabeção” pelos seus colegas. No inicio de sua vida, ter esse apelido não o incomodava, mas com o passar dos tempos alguma coisa fez com que essa brincadeira começasse a perambular sua mente e a incomodá-lo por completo. No ensino médio, o apelido Cabeção era freqüentemente ouvido pelos corredores da escola, e Beni começava a perder a paciência. Gordo, com poucos amigos, e com uma cabeça relativamente grande, ele apenas absorvia aquele apelido sem fazer nada, retraindo uma raiva e uma súbita vingança.

Certo dia a porta da sala do delegado Max foi aberta de repente. Um dos policiais informava que um corpo tinha sido encontrado sem a cabeça na escola municipal. As investigações começaram naquele exato momento. Três dias depois, uma professora da escola entrou na sala de aula e se apavorou com o que viu. Outro corpo sem cabeça estava caído próximo ao quadro negro. Ela imediatamente chamou a policia. Porém, o mistério dos corpos sem cabeça não parou por ai. Em menos de três semanas, cinco corpos foram encontrados sem cabeça. Era um enigma que os intrigava.

Quando um sexto corpo foi encontrado, outro mistério começou a perambular pela cidade: o jovem Beni McCarthy estava desaparecido há alguns dias. Um turbilhão de dúvidas começou a pairar pelo ar, e no meio das investigações, um professor relatou que Beni era chamado de Cabeção pelos colegas, fato este que até então era desconhecido pela polícia. Os pais do garoto não conseguiam entender o porque...

Numa manhã de outono, o delegado Max conversava com uma senhora que relatava a ele que, na noite anterior, vira um menino perambulando pelas ruas e que parecia ser Beni. A conversa parecia importante para o caso, quando de repente um policial abriu a porta da sala, informando sobre mais uma peça no quebra-cabeça.

– Delegado – o policial parecia ofegante –, mais um corpo foi encontrado sem a cabeça essa manhã. Estava perto da velha usina, num terreno baldio, esquina do Luts.

Luts era um dos bares da cidade. Intrigado, Max olhou para a mulher.

– Foi próximo ao Luts que você supostamente viu o menino?

– Sim, delegado, foi próximo a esse bar mesmo.

Max dispensou a senhora e as investigações foram retomadas. À noite, porém, um telefonema anônimo perturbou a noite do delegado. Do outro lado da linha, uma voz fantasmagórica indicava um local, e dizia que lá o mistério chegaria ao final.

Rapidamente Max mobilizou todo o seu pessoal e correu para a usina. Várias viaturas foram para lá, e assim que chegaram, começaram a procurar. No final da ala leste da construção abandonada, um policial viu um bilhete pendurado na parede. Nele lia-se: olhe para a direita. Todos viraram. Foi arrepiante! O que viram foi um varal de metal, estendido de uma coluna a outra. Penduradas nele, em vez de roupas, estavam todas as seis cabeças que haviam desaparecido junto aos corpos. Era uma cena assustadora. As cabeças foram reconhecidas, e chegou-se à conclusão de que pertenciam a todos os corpos encontrados. Mas tudo aquilo deveria ter um motivo...

– Quem fere será ferido... aí está o resultado pelo que eles me fizeram.

No segundo andar, acima das cabeças, estava o jovem Beni McCarthy, todo sujo, parecendo um indigente. O pessoal tentou convencê-lo a descer e se entregar, mas não adiantou, essa seria a sua sentença. Do teto central da usina jazia amarrada uma corda grossa que ia ao encontro de Beni. Ele não disse mais nenhuma palavra, simplesmente firmou a corda em seu pescoço e deu o passo para a morte. Todos ficaram boquiabertos. Beni, depois de matar seis jovens, arrancar suas cabeças, pendurá-las em um varal de metal, agora terminava com sua vida. Suicidara-se de forma triste.

O corpo do jovem McCarthy balançava como um pêndulo no centro da usina.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

AMANTES DE UM TEMPO SEM FIM



Talvez algum dia, em algum lugar, eu consiga compreender o porquê de algumas coisas serem tão injustas. As vezes acho que o destino debocha de minha cara, sem perceber que as poucos ele começa a destruir um coração já machucado e cansado.

Tenho idade suficiente para entender que o meu destino já está traçado, e amaldiçôo-me por isso. A minha maior glória é a presença de minha filha em meus dias, e seguidamente penso que ela é o real motivo que me faz viver. Sabe, por muitos dias a fio eu pensei em como seria a minha vida se ele não tivesse entrado nela. Ainda o amo! Sempre nos amaremos! Mas o destino tratou de nos afastar. Lembro-me que cada um seguiu o seu caminho e que a vida tornou-se salgada para ambos. A comida não tinha mais sabor, o sol não mais brilhava com a intensidade que deveria, as cores sumiram e toda a escuridão que jamais imaginei experimentar, se instalou em mim.

Assim o tempo passou, e coisas inesperadas vieram a ocorrer. Conheci outro homem, e desse romance sem sal nasceu minha filha. Com dificuldades e esparsas alegrias, os dias iam e vinham e eu sabia que a felicidade não existia para mim, pois a única coisa que poderia fazer de mim uma mulher feliz, era a presença e o amor dele.

Previsivelmente, me separei a algum tempo e hoje vivo somente com a minha pequena. Há alguns dias andei vasculhando o meu apartamento a procura de algumas coisas, e por ironia, acabei achando uma caixa cheia de cartas. Todas as cartas que ele me enviou. Num momento de pura nostalgia, comecei a desdobrá-las e a lê-las. Todas lindas, todas tão bem escritas com a caligrafia que eu reconheceria em qualquer lugar. Em algumas delas encontrei flores secas, das inúmeras que ele me dava. Por algumas horas li várias e várias cartas e lembrei-me de como era lindo o jeito de como ele me chamava de princesa e, por vezes, me oferecia carona, levando-me pra lá e pra cá em seu automóvel Fusca. No meio daquele arsenal de palavras calibradas de amor, viajei por um mundo somente nosso, vasculhando na alma alguma resposta que pudesse me deixar em paz a ponto de me fazer compreender o porquê daquele amor proibido.

Nas noites de inverno, quando a escuridão paira sobre a cidade, e quando a minha filha já está mergulhada num somo profundo, eu sento na mesma janela e olho pra fora. Observo o vento traiçoeiro, a chuva fina e a névoa densa tomando conta da cidade. A lembrança dele vem bombardear a minha mente. Era nesses momentos que ele me tomava nos braços e me acariciava como poucos conseguem fazer.

Vendo todo esse sentimento bagunçado que havia dentro de mim mesma, após todos os fatos ocorridos, tomei a decisão de ir procurá-lo, sabendo que meu medo era grande, pois ele teria todo direito do mundo em não querer me ver, nem conversar comigo. Mas me enganei. Quando nos encontramos pude perceber que aquele sentimento que existia dentro de mim fez meu coração bater tão forte, sem controle...

Nos últimos tempos, após este nosso primeiro encontro, temos nos encontrado muito esporadicamente, mesmo que furtivamente. Passamos poucas horas ou minutos juntos, mas é o suficiente para matar a saudade e o gosto sensível de um amor totalmente nosso. Mas isso não basta, pois sabemos que muito embora esses encontros sejam inteiramente agradáveis, o momento é curto e logo teremos que nos separar.

Porque Deus criou o amor proibido? Porque o destino costuma ser tão amargo?

Para algumas perguntas simplesmente não existem respostas. Ou tentamos compreender a pergunta ou assentimos e vivemos com o segredo para o resto da vida.

Eu amo ele, e tenho certeza que ele também me ama. Circunstâncias adversas impedem o nosso amor, mas nada no mundo bloqueará a nossa história, e nosso romance, esse que tanto sofremos para viver, ficará eternamente ligado em alguma veia do nosso coração, cravada na nossa alma, perpetuando-se pelos tempos sem fim, como se um dia, quando as respostas forem encontradas, talvez as pessoas consigam entender o que um amor pode fazer entre duas pessoas separadas pelo destino.

sábado, 14 de janeiro de 2012

PUNHOS EM AÇÃO, SANGUE NO CHÃO


Jamais faça mal algum a mulheres e crianças inocentes, você poderá se machucar. Digo isso porque certa vez quase destruí a face de um homem, e só não o matei porque vizinhos me arrancaram de cima do maldito. Até hoje acho que nunca tive tanta raiva e ódio em toda a minha vida... mas não me arrependendo de nada.

Seu nome era Javier Mendonça, um mexicano metido a vendedor de produtos de limpeza que volta e meia visitava minha casa, não a fim de vender, mas a fim de dar em cima de mulher, como vim percebendo nos últimos dias.

Sempre trabalhei, desde pequeno. Na infância, quando meu pai me levava junto com ele para o seu local de trabalho – uma oficina mecânica a algumas quadras de casa –, eu desenvolvia o oficio da profissão com os olhos, e depois com as mãos. Com dezoito anos fui convidado para participar de um campeonato de luta, onde após observar minha envergadura e ficar, de certa forma, estupefato com o meu tamanho, um dos clientes da oficina me ofereceu suporte e disse que eu seria um grande lutador. Concordei com a ideia e, enfim, dias depois estava lutando pela primeira vez.

Anos depois conheci Val, mulher cujo relacionamento nos presenteou Louis, nosso lindo filho. Após constituir a minha família, continuei trabalhando na oficina e fui aumentando minha popularidade nas lutas que participava. Tudo ia bem, até que Javier veio para atrapalhar as coisas.

Naquele dia, com a camisa nas mãos, fui chegando em casa. As botas, apesar de pesadas, quase não fazia barulhos. A calça estava toda suja e meu peito e abdômen externavam alguns resquícios de motores múltiplos. Percebi tudo calmo até então, nada de anormal, até que, quando fui chegando à garagem, ouvi um grito e alguns soluços. Soltei a camisa e corri casa adentro. A primeira visão que tive foi do meu filho sentado no chão da sala chorando. Olhei-o e peguei a primeira coisa que vi pela frente: um abajur. Segui furioso com ele na mão. Minhas vistas avistaram Javier com uma mão no pescoço de Val e com a outra tentando invadir suas pernas por baixo do vestido.

Por tudo que é mais sagrado, eu me senti como se uma corrente elétrica entrasse pelas minhas veias e tomasse conta do meu corpo, possuindo-me como um demônio. Senti elas se dilatando e meus olhos se abriram de uma maneira que o sangue poderia a qualquer momento explodi-los. A minha boca pareceu salivar. Agarrei aquele abajur e, a sangue frio, bati com tudo nas costas de Javier, que caiu no chão. Pedi a Val como ela estava e quando percebi, ele estava se levantando. Fui até ele e chutei seu rosto com o peso das minhas botas. No chão, peguei-o pelo colarinho e o ergui, jogando contra a parede. Minhas mãos voaram de encontro a seu estomago e seu rosto inúmeras vezes. Enquanto ele gemia, eu gritava como um doente, um doido, um maluco afoito querendo a todo custo mostrar que ele não devia de modo algum ter entrado naquela casa.

Peguei Javier pelos cabelos e o arrastei para fora da casa. No jardim ele minhas mãos e pés davam o corretivo merecido. O sangue começou a sair de sua boca e nariz. Javier não mais possuia força alguma. Meus dedos ardiam, mas eu não estava me importando, pois naquele momento a única coisa que eu queria era que o movimento do meu braço acelerasse para bater cada vez mais naquele filho da mãe.

Depois de alguns minutos, senti dezenas de mãos sobre meus ombros e minhas costas. Eram os vizinhos me arrancando dali. Quando me afastei, vi que a grama estava manchada de vermelho com o sangue de Javier e que ele estava desmaiado, coberto de sangue por todo o corpo. Eu ofegava, cansado de tanto batê-lo com meus punhos.

Quando a ambulância chegou, eu estava abraçado em Val e Louis, protegendo-os. Javier foi levado para o hospital e minha raiva e ódio aos poucos começou a sumir, como se um calmante tivesse entrando em meu sangue. Beijei meus maiores tesouros.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

ENTRA ANO E SAI ANO



Não sei por que faço isso, mas todo ano isso se repete. Tenho a graça de dedicar esse tempo às coisas que passaram, ao celebre ano que já não mais nos pertence.


Gosto de vir ao mesmo lugar de sempre e fazer esse balanço de emoções. O que aconteceu durante o ano? Você parou para pensar nos encontros e desencontros, nos risos e nas lágrimas, na dor e no amor, no ódio e na delicadeza das coisas?


É engraçado, mas toda vez que um ano se inicia, uma sensação de coisas boas se anuncia. Esperamos realizar nossos sonhos, efetivar nossos projetos e alcançar nossos objetivos. Ai você chega a essa época e se pergunta, será que eu alcancei o que queria alcançar? A vida é um sopro sem fim, que não para para que possamos pensar se está ruim ou se está bom, temos que seguir o seu fluxo, acompanhar seus passos, sabendo que ela só se encerra quando paramos de respirar.


Muitas coisas aconteceram nesse ano, tantas que é até difícil de catalogar. O mundo enfrentou coisas que sempre duvidamos e suportou outras que jamais imaginaríamos. Você, que hoje espera a contagem regressiva para a entrada de mais um ano, também enfrentou muitas coisas, suportando outras que talvez nunca pensou que tivesse coragem. Mas soube ter força para isso, souber ter a coragem necessária.


É tempo de recordar, fazer uma breve retrospectiva do que você passou nesse ano. Os encontros e desencontros, os amores e as discórdias, as alegrias e os dias de solidão, a noite fria e a tarde quente, o sabor e o dissabor das coisas, a realidade e a fantasia que insistia em querer se tornar real.


Mas enfim, esse ano está acabando, e você já pensou sobre o próximo? Tem alguma coisa pendente que ficou pra trás? Seus sonhos, seus objetivos e projetos, suas fantasias e desejos, já pensou neles para esse ano que vem sorrindo pra você? Eu olho o horizonte nesse momento e fico pensando em como será esse novo ano, o que ele tem a nos oferecer, o que ele terá para nos presentear, o quanto ele nos fará sofrer e o quanto ele nos fará perceber que a vida é uma senhora que tem dois lados.


O mais impressionante disso tudo é que o que mais recordamos são as pessoas. É bom lembrar de quem amamos e de quem nos faz bem. Quem, por obra magistral do acaso, entrou de súbito em nossa vida. Claro, às vezes não deixamos de lembrar aquelas pessoas que tiveram o infortúnio de atravessar nosso caminho. Dessas também recordamos, muito embora, e de forma rápida, suas lembranças, por si só, se esvaem como a névoa em uma noite de tormenta.


Talvez a maior de todas as glórias sejam essas pessoas que você recorda. Não acredito que a vida tire da memória alguém que para nos se torna especial, muito pelo contrário, acredito que a vida é grata e faz com que pessoas especiais, que fazem com que nossa vida se torne útil, pessoas que com o seu sorriso faz você se sentir importante, ficam eternizadas em sua mente, gravadas para sempre na sua alma, a sete chaves.


As horas se aproximam, as famílias preparam as ceias, uns vão ao supermercado, outros vão ao cabeleireiro, outros lavam seu carro, outros preparam os corações.


O último dia do ano, o dia de emoções, recordações e sensações estranhas que logo cedo começam a corroer nosso estômago e nossa alma. Amanhã entraremos de braços abertos em um novo ano... e nesse lugar que sempre venho, todo dia 31 de dezembro, observo que os fogos estão começando a colorir o céu e que as pessoas iniciam o ritual de praxe, aguardando o momento de estourar a champagne.


Deus, obrigado por mais um ano, obrigado pelas pessoas que colocaste em meu caminho e pelas coisas que pude realizar. Perdoe minhas falhas e me de força para novamente seguir nessa espetacular caminhada.


Um salve ao ano que se vai e um brinde ao ano que chega!

domingo, 18 de dezembro de 2011

O RETORNO DO PAPAI NOEL DO INFERNO

As festividades do natal haviam encerrado aquela noite. Tudo estava lindo, decorado de tal maneira que encantava até mesmo os olhos daqueles que de alguma forma conferem certa repugnância por aquela data.

Naquela véspera de natal, finalmente a chuva tinha dado uma trégua, fato que levou milhares de pessoas à praça principal, a fim de presenciarem as atividades. Marie e seu filho, o pequeno Oliver, também tinha ido prestigiar as comemorações. Aquela monstruosidade de luzes e aqueles enfeites tão bem arrumados, traziam a Oliver uma fantasia que a qualquer momento poderia se tornar real. E a crente sensação de que poderia encontrar o Papai Noel em uma daquelas noites, só o deixava ainda mais entusiasmado.

Nesta mesma noite, durante a madrugada, o Papai Noel haveria de aparecer... Marie acordou com um estrondo que vinha do corredor. Assustada, levantou e foi até a porta. Observou o corredor mergulhado na penumbra. Começou a caminhar, e logo percebeu que a porta do quarto de Oliver estava aberta. Apressando-se, Marie foi até lá, e quando chegou, foi recebida por um vento frio. Seu coração acelerou. A cama estava vazia e a janela estava aberta. Marie correu até lá e, sobre o parapeito, chamou pelo filho. Não obteve resposta, mas, forçando a visão, percebeu quando um par de pernas se perdia pela rua.

Ela respirou depressa e desceu às escadas correndo, saindo porta afora. Conseguiu ver quando aquelas pernas dobraram a esquina. Quando se encontrou em uma avenida, conseguiu distinguir a silhueta que as compunha. O corpo parou, de costas para Marie, à distância. Inerte, ela percebeu que aquilo carregava um corpo em seu colo. Era o pequeno Oliver. Antes de continuar correndo, a figura que carregava seu filho virou o rosto para ela e sorriu brevemente, de uma forma horripilante.

Marie gritou o nome do filho. Em poucos minutos eles atravessaram a catedral principal da cidade, e Marie avistou quando aquela silhueta mergulhou nas ornamentações natalinas que ficava aos pés da catedral, na avenida principal. Quando ela chegou em frente àquela Cidade de Sonhos, parou e observou o local. Dezenas de casinhas sustentavam a rua. No centro um imenso pinheirinho de natal piscava com suas luzes e suas bolas coloridas. Sem pensar, ela começou a procurar por Oliver em cada casinha.

Com o coração apertado e a respiração ofegante, Marie começava a perder as esperanças quando chegou em uma das últimas casinhas. Oliver estava deitado, dormindo. Marie o chamou. Quando ele abriu os olhos, suspirou de alegria e tentou correr para os seus braços, mas algo o fez parar. Oliver quebrou o silêncio.

- Ma... Mãe, não olhe pra trás! Não olhe, mãe!!!

Não adiantou o filho ter avisado. Marie já sentia a respiração em sua nuca, esfriando-lhe a espinha. Foi virando o rosto lentamente e, quando viu aquilo, sentiu suas pernas se perderem e a fala desaparecer. Uma criatura vestida de Papai Noel estava diante dela. Era enorme e tinha garras e dentes afiados. Um sorriso saiu de sua maldita boca antes de fechar a porta da casinha onde Oliver estava e agarrar Marie.

Oliver ouvia os barulhos infernais que aconteciam lá fora. Em instantes, o silêncio predominou. Ele encolheu-se, e viu quando a criatura abriu a porta da casinha e entrou.

Pela manhã, um homem passava por ali para ir trabalhar quando ficou horrorizado ao ver aquela cena. No topo do pinheirinho, dois corpos jaziam dependurados. Marie estava nua, sem um dos braços e cheia de cortes em seu corpo, já o pequeno Oliver estava sem as duas pernas. Ambos estavam sem a cabeça. Ao olhar para o pé do pinheirinho, o homem teve náuseas ao ver as cabeças de Marie e Oliver sobre dois pacotes de presentes.

sábado, 19 de novembro de 2011

UM AMARGO SABOR DO DESTINO


– Será que... bem... será que posso convidar você para uma xícara de café? – Essa foi a primeira reação que tive quando a vi. Há anos havíamos deixado de nos falar, mas em nenhum momento desses anos deixei de tê-la em minha mente. Sempre me perguntei qual seria a minha reação quando a visse, e o simples convite para saborear uma xícara de café foi o que me veio à mente. Seria essa a melhor das reações? Isso eu não sei dizer, mas foi a mais sensata das coisas.

Ela somente balançou a cabeça afirmativamente. Meu coração acelerava pela segunda vez em minutos. Em meio à multidão da rua, começamos a caminhar. Entramos em um pequeno Café, cheio de executivos, casais, pessoas bebendo nostalgia e... nós. Sentamos na janela. Um de frente para o outro. Ela finalmente falou.

– Por que agora? – seu semblante estava sério.

– Como assim? – perguntei, me fazendo de idiota, pois eu sabia que a pergunta era óbvia. O que nos separou foi algo tolo, uma coisa que até hoje não entendemos. Sempre nos amamos, mas o tempo e a vida deram um jeito de nos separar.

– Não sei se devemos conversar. Receio que não devíamos estar aqui...

Perguntei por que e ela me respondeu, cravando um punhal em meu peito. Respondeu-me que estava tendo um caso com outro homem, que adorava ele, se sentia feliz e que tudo o que ela precisava podia encontrar nele. Eu fiquei sem palavras.

– Eu sempre te amei – foi o que, minutos depois, consegui falar.

– Tem certeza?


– Nunca tive tanta certeza nessa vida – fiz uma pausa, e metralhei: – Olha, desde que paramos de nos ver, minha vida tem sido uma droga. Tenho saído com amigos? Sim. Tenho tido prazeres com outras mulheres? Sim. A vida e o tempo não param para nos ver passar, e tudo o que faço e fiz é uma maneira inútil de me manter vivo. Sabe por quê? Porque a minha vida está acondicionada a sua. Eu acordo de manhã pensando em você, almoço pensando em você e durmo pensando em você. Os momentos de solidão são torturas para mim, pois imagino você ao meu lado, me beijando, brincando comigo, deitada na minha cama, acordando... – respirei, tentando não demonstrar o que por dentro estava se tornando cada vez mais forte. – Eu conheço muitas mulheres, sabia? E quanto mais às conheço mais vejo que o mundo não me oferecerá nada melhor do que você. Enquanto aqui estamos juntos o meu coração não para de acelerar...

Baixei a cabeça. Permaneci com as lágrimas presas nos olhos. Chorar agora seria sinal de fraqueza. Quando ergui os olhos quem chorava era ela, mas continuava seria.

– E por que somente agora...? – sua voz estava embargada.

– Não sei... simplesmente não sei.

– Eu gosto da pessoa com quem estou, ele me faz bem. Mas... – ela começou a chorar. – Sempre esperei que um dia você viesse me buscar, me procurar. Fiquei esperando você, e quando percebi que o tempo passava e que você não aparecia, compreendi que não queria mais nada comigo. Tive que me contentar com esse desprezo. Então agora que estou bem, feliz, você aparece para... para... deixar confusa.

– Eu tenho uma proposta para lhe fazer: quero que vá embora comigo. O que acha? Não precisa responder agora. Tem dois dias. Esperarei aqui, neste mesmo local e horário. Se você não vir, entenderei que não quer nada comigo e que a nossa história terá um fim, como tantas outras histórias – olhei fixo para ela, que concordando, saiu.

Dois dias depois eu entrei naquele Café com o coração acelerado, mas ela nunca apareceu. Não sei por que tudo aquilo aconteceu e nem a que ponto chegou, mas o que está destruído na vida, não estará no meu coração. Levantei e sai com lágrimas nos olhos, mas com a cabeça erguida, tentando entender esse amargo sabor do destino.